macondo sem ursula

vó zefa não virou pó

porque quando entramos na cidade estava de pé a sua igreja. porque quando chegamos em casa, seu choro que sempre nos recepcionava estava nos olhos de sua filha márcia. e eu, aqui deitada em sua cama, quando olho pro lado estou na companhia de suas santas, sinto seu cuidado através dos olhos das imagens de ana e rita. não há ausência porque permanece o fio infinito da memória que nos une ao redor da mesma pra lembrá-la com tanta saudade.

vó zefa não morreu de verdade se santana dos garrotes (e nós) permanece de pé.

no peito dos desafinados

os hábitos da pandemia foderam a bateria do meu celular a ponto dele não aguentar uma viagem de joão pessoa pra santana dos garrotes com o bluetooth tocando músicas no som do carro. daí que da metade do caminho pra cá, mais ou menos depois do café da manhã em soledade, a música saiu do nosso gogó. particularmente gosto muito de cantar, pena que nem eu sei, nem tenho talento. canto na teimosia e pobre de quem estiver perto. pra sorte de painho, mainha canta muitíssimo bem e sua voz potente soa bem mais alto que a minha desafinada.

cheguei pensando se um professor de canto aceitaria uma destalentada que nem eu, só pra me ensinar a respirar, achar o tom, essas coisas… porque cantar na viagem foi muito divertido mas no final minha garganta tava fatigada sem conseguir gerar uma única nota no tom certo. noel rosa, coitado, se houver algum tipo de vida após a morte que o possibilitou me ouvir estragar sua obra, certamente tá arrependido de algumas composições.

46º dia de isolamento social

Movimento dos barcos

Tô cansado
E você também
Vou sair sem abrir a porta
E não voltar nunca mais

Desculpe a paz que eu lhe roubei
E o futuro esperado que eu não dei
É impossível levar um barco sem temporais
E suportar a vida como um momento além do cais

Que passa ao largo
Do nosso corpo
Não quero ficar dando adeus
Às coisas passando, eu quero
É passar com elas, eu quero
E não deixar nada mais do que as cinzas de um cigarro
E a marca de um abraço no seu corpo

Não, não sou eu quem vai ficar no porto chorando, não
Lamentando o eterno movimento
Movimento dos barcos, movimento

 

Jards Macalé

Cinto fatos literários sobre mim

  1. Painho sempre leu muito mas eu não fui uma criança leitora justamente porque o jeito que ele achou de me incutir o hábito foi estabelecendo metas de leituras como castigos quando eu fazia algo errado. Foi assim que detestei Dom Casmurro, São Bernardo e Policarpo Quaresma com todas as minhas forças até o fim da adolescência quando os castigos literários não existiam já há muito tempo e eu cismei com o título de um livro que ficava na altura dos meus olhos, o que me leva ao segundo fato.
  2. Cem anos de solidão foi quem me trouxe já velha ao hábito de ler. Lembro como se fosse hoje o espanto maravilhoso de conhecer Úrsula Buendía. Gabriel García Márquez certamente me salvou de uma vida insossa com seus livros que devorei em sequência.
  3. Fiz as pazes com Graciliano Ramos que agora é um de meus autores preferidos (Angústia, que livro), mas Machado de Assis ainda não conseguiu me descer, acho chato e meio mé, mas sei que um dia encontro caminho até ele.
  4. Adoro conversar com as margens do livro. Pra mim, livro bom é livro usado, grifado, riscado. Não entendo muito bem a pira de manter livros como intocados na estante. Pra quê?
  5. Sinto uma alegria imensa por ser contemporânea a Elena Ferrante e poder ler seus livros recém saídos do forno. Daqui um século ela será clássica e eu não vou estar viva, mas é um privilégio prestigiar seu nascimento com consciência da grandiosidade de sua obra.

Enquanto apresentava o conceito de Formação Reativa a Alison Bechdel, Carol, sua terapeuta, falou sobre ela ter herdado medo e agressões que seus pais não processaram e lembrei do experimento da sra. Dusheiko com ervilhas sobre hereditariedade de nossa experiência de vida.

Insônia

Hoje eu vi meu afilhado, que é quem renova meus estoques de amor incondicional quando o mundo anda esquisito, tomamos banho de piscina, depois tomei um banho de mar com Jana que eu nem esperava avistar hoje mas foi uma ótima companhia de mergulho, fui pro espaço cultural, encontrei Winnie, Líbia e minha provável futura cunhada, vi Parasita sentada ao lado de uma mulher linda demais, comi japonês com mainha na cama dela, senti umas tristezas e finalmente tive insônia. São quatro e quarenta e sete da madrugada e os pássaros já começaram a amanhecer o dia enquanto eu estou a um milímetro de desistir de chamar o sono. A vida é boa como foi o dia de hoje, mas quando o peso do mundo decide estacionar em cima do nosso peito, a dor é tudo o que existe.

Francisco John Ernesto

Captura de Tela 2019-12-28 às 19.43.21.pngMainha leu a biografia de Olga Benario escrita por Fernando Morais quando eu ainda era um amontoado de células e se tenho esse nome lindo é por causa desse livro. Quando criança eu não entendia o significado e detestava o fato de meu nome só aparecer nas novelas em personagens já velhinhas. Ora, eu tão nova não merecia um nome de vó. Que boba que eu era! Cresci, li o livro e captei a mensagem que Fernando me deixou na dedicatória que ganhei aos quatro anos. Graças a ele, a mainha e à mulher maravilhosa que Olga foi, eu não tenho notícia de outro nome que teria tanto orgulho de carregar. Mas essa história podia ser outra porque meus pais não quiseram saber meu sexo durante a gravidez. Ficou decidido que mainha escolheria nome feminino e painho, masculino. Em sua época de universidade, ele foi programador musical na Radio Tabajaras, então havia um sem-número de músicos e compositores que mereciam a homenagem. Alguma homenagem política também haveria de ter. Depois de muita peneira, sobraram três nomes, nenhum deles dispensável. Ficou decidido que se o rebento fosse homem, se chamaria Francisco John Ernesto. Chico Buarque, John Lennon e Che Guevarra eram os homenageados desse nome peculiar, pra não dizer horroroso. Houve muita comemoração quando nasci Olga, menos por parte de painho. Não que ele não gostasse da ideia de criar uma menina, mas tanto juízo foi gasto naquela escolha que ele não podia ficar sem participar do meu nome e assim veio Elis. Eu, que não creio, só acho de agradecer a deus pelo Olga Elis porque meu nome poderia muito bem ser Olga Bethania, Olga Gal (!!!), ou sei lá qual outra marmota surgida da cabeça prejudicada de meu pai. 

Herberto Helder

Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega

Amora

Por acaso hoje reli meu conto preferido de Natalia Borges Polesso e fiquei surpresa quando o penúltimo parágrafo começou com “Amanhã já é dezembro” nesse trinta de novembro. A literatura tem uns jeitos de mostrar os caminhos que eu não questiono, então achei que devia seguir o conselho da personagem e ir atrás desse tipo de cura pra ansiedade, gripe e saudade que é meter os pés dentro d’água. Porque a atual iminência da chuva que passou a noite caindo, além de atrapalhar as urgências, alaga mais dentro que fora. “Isso é engraçado, né? Porque, se não fosse a chuva, não haveria nem vontade nem tristeza em potência, e aí está o paradoxo: ao que ela impede, também propicia.”. Molhei os pés, então entendi. Talvez daqui vá eu mesma com Amora debaixo do braço tomar um pingado no meu café preferido sem ter a quem desmascarar.